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05/04/2017 14:31

OS JARDINS SUBMERSOS

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Alguns dos rios mais impressionantes no mundo correm pelo Planalto da Bodoquena, no Mato Grosso do Sul. As águas são quase tão claras quanto o ar, a tal ponto que os peixes parecem “voar” sobre jardins submersos espalhados por leitos de areia calcária branca. Esses ambientes de beleza estonteante funcionam como janelas para a observação de espécies normalmente ocultas pela turbidez natural da maioria das bacias hidrográficas. Até mesmo grandes mamíferos, como as antas, podem ser vistos em frequentes incursões subaquáticas. Elas andam no fundo com desenvoltura – não me lembro de ter visto cena mais inusitada em um mergulho.

Sempre fui fascinado pela vida na água. Quando comecei a fotografar, com 15 anos de idade, foi no fundo do mar. Tempos depois, ao saber desses rios cristalinos na cidade de Bonito, a mais conhecida na região da Bodoquena, corri para lá com a minha câmera anfíbia Nikonos V e uns dez rolos de filme. Foi inesquecível a emoção de ver aquelas águas pela primeira vez.

Com o tempo, dezenas de fazendas de gado da região abriram as suas porteiras para visitantes ávidos por viver a experiência única de flutuar com máscara de mergulho ao lado de cardumes de peixes grandes, como dourados, curimbas,piraputangas e pacus. Os proprietários estruturaram os seus atrativos de acordo com os critérios da autoridade ambiental do lugar, em nome da proteção do principal produto turístico local: a água pura e cristalina. Deu certo. Uma cadeia virtuosa de empregos qualificados floresceu, e Bonito conquistou a merecida fama de modelo de turismo próspero com respeito ao meio ambiente.

Mas nem o sucesso da nova indústria, responsável por uma renda de 102 milhões de reais em 2015, foi suficiente para eliminar todas as ameaças à natureza rara da Bodoquena. Pesquisas da Fundação Neotrópica do Brasil alertam para a vulnerabilidade de alguns ambientes fundamentais para o equilíbrio do ecossistema. É o caso dos banhados – vastas várzeas ao longo de parte dos cursos dos principais rios da região, Formoso e Prata. Os alagados, como também são chamados por ali, proporcionam abrigo a uma rica fauna e desempenham o papel fundamental de reter partículas suspensas na água, processo importante na manutenção da limpidez dos rios.

Localizados em fazendas de soja e milho, os banhados sofrem há tempos com a contaminação por agrotóxicos e com a drenagem para o aumento das áreas de lavoura. Antes que seja tarde, ambientalistas clamam por uma legislação específica para a proteção dessas áreas úmidas.

Em um desses banhados, no Rio Formoso, fiz a foto da sucuri fêmea estrangulando o seu companheiro após o acasalamento, a fim de repor a energia despendida (páginas anteriores). “Era um comportamento conhecido pela ciência, mas nunca antes documentado”, diz o herpetólogo venezuelano Jésus Rivas. No fundo, é isso o que espero: que esta e outras imagens ajudem na compreensão da natureza da Bodoquena e na consequente conservação da biodiversidade local.

Texto/fonte: Luciano Candisani, National Geographic
Fotos: Google Divulgação, Rio da Prata
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